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Junho 10, 2004

Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças
Voce teria coragem de apagar um ex-amor da memoria de uma vez por todas?

por Andre Sirangelo, de Londres


CLEMENTINE – “Now I'm nice? Don't you know any other adjectives? There's careless and snottyand, overbearing and argumentative... mumpish…”

JOEL – “Well, anyway... Sorry.”

CLEMENTINE – “I just don't think "nice" is a particularly interesting thing to be.”


Muita gente vai ao cinema querendo ver filme ruim, da mesma maneira que muita gente se empenha em escrever, produzir e dirigir filme ruim. Uma coisa que se pode dizer de Charlie Kaufman eh que ele definitivamente nao eh um desses.

Eternal Sunshine of the Spotless Mind nao eh soh mais uma historia absurda e surreal saida da mente do roteirista de Quero Ser John Malkovich e Adaptacao; eh tambem – e o titulo emprestado de um poema de Alexander Pope ja da algumas pistas – uma reflexao poetica, sem genero definido, sobre o que ha de bom e de ruim na vida. Mas sem melodrama ou moral da historia.

Sob a impecavel direcao do frances Michel Gondry, famoso por seu trabalho em videoclipes de artistas como Bjork, Radiohead e White Stripes (para citar so alguns) e parceiro de Kaufman no mal-sucedido Natureza Quase Humana, a trama brinca com a possibilidade de apagar de uma vez por todas as mas lembrancas de um relacionamento fracassado. Jim Carrey – na performance que empata com voce-sabe-quais como a melhor de sua carreira – eh Joel Barish, um timido novaiorquino que descobre que sua ex-namorada Clementine (Kate Winslet, igualmente brilhante) procurou a Lacuna Inc., uma empresa especializada numa especie de lavagem cerebral volutaria, para literalmente elimina-lo da memoria. Desolado, ele conclui que a unica maneira de superar o choque eh fazendo o mesmo... apenas para perceber no meio do caminho que se livrar de Clementine eh a ultima coisa que sua mente vai permitir.

Joel a principio parece nao se importar com o fato de que nao sao apenas as mas lembrancas que vao embora, algo que nem o medico responsavel pelo procedimento (Tom Wilkinson), a enfermeira com um segredo obscuro (Kirsten Dunst) ou os dois cretinos encumbidos de mapear a mente dos clientes (Mark Ruffalo e Elijah Wood) tambem nao se importam em ressaltar. Ao final da longa noite em que se passa a maior parte da acao, porem, cada um dos personagens vai notar, a sua maneira, que sem os maus momentos talvez os melhores nao seriam assim tao bons.

Portanto, voltando ‘a logica desastrada do primeiro paragrafo, talvez nao seja tao ruim que obsenidades da estirpe de “Armageddon” ou “O Retorno da Mumia” (para citar os dois primeiros que veem a cabeca) saiam do papel e faturem milhoes. Sem eles, Eternal Sunshine provavelmente nao estaria tao alem de ser so mais um filme legal.

 

 

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