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Abril 20, 2004 Kill Bill: Vol. 1Quebra-pau, anime e Uma Thurman no retorno triunfal de Quentin Tarantino Andre Sirangelo, de Londres (onde os teclados nao tem acentos...) Se Kill Bill tem uma fraqueza, esta esta no fato de que falar mal vai ser facil demais para desinformados, conservadores e chatos em geral. Basta citar uma ou duas das diversas cenas de gosto duvidoso, a trilha exagerada, o excesso de violencia gratuita, etc. e tal. Para os mais chegados ao estilo nao-convecional que marca a carreira de Quentin Tarantino, porem, e tarefa simples identificar nesses mesmos elementos os toques de humor que ajudam a construir esta homenagem do diretor ao cinema asiatico - uma inigualavel salada pop de referencias que incluem doutrinas samurai, historia em quadrinhos, animacao japonesa, seriados classicos e faroestes-espaguete. O ponto de partida e um fiapo: a Noiva, personagem de Uma Thurman, sai do coma quatro anos apos sobreviver miraculosamente a um massacre, aparentemente no dia de seu casamento, e parte para o Japao para executar seu sangrento plano de vinganca contra os membros do esquadrao de assassinos liderado pelo homem que, a julgar pelo titulo, parece estar com os dias contados. Como nos bons games de luta, por exemplo, o enredo, apesar de funcionar bem, e puro pretexto para a pancadaria e os incontaveis litros de sangue falso espirrados na tela (em certo ponto literalmente) a medida em que Uma - espetacular - vai abrindo caminho entre os viloes caricatos mais bem construidos desde a era de ouro da franquia 007. Tudo, da divisao em capitulos ao final totalmente aberto (como era de se esperar) sugere que Kill Bill se encaixa sem folga na definicao "anime live-action" - um dos melhores capitulos, inclusive, e inteiramente apresentado em animacao autenticamente japonesa. Tarantino soube usar nao apenas seus famosos truques de camera e edicao, mas tambem citacoes metalinguisticas e recursos pouco usuais que qualquer um pode reconhecer como heranca de filmes B de artes marciais - afinal, gracas aos fins de semana na TV aberta, ninguem e completamente leigo no assunto. O que poderia resultar numa pobre e nauseante trama de vinganca como milhares de outras, ao final se revela uma experiencia unica e diferente de tudo que Tarantino ja mostrou. Forcando a barra, e possivel interpretar como um poderoso tratado estetico sobre a influencia oriental na cultura, nos valores e na maneira ocidental de contar uma historia. Em termos mais simples, um filmaco do cabo ate a ponta da lamina.
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