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Novembro 3, 2004

Alias
Com um atraso de quase 15 meses, chega ao Brasil a decepcionante nova temporada da série de espionagem estrelada por Jennifer Garner

por André Sirangelo


Três anos depois de estrear na TV americana, Alias é o que se pode chamar de um caso raro. Apesar de ser uma das séries mais cultuadas da atualidade e de ter sido o principal fator na ascensão meteórica da carreira da atriz Jennifer Garner, o drama de espionagem nunca realmente decolou nos números de audiência, sempre se mantendo num patamar apenas satisfatório para a ABC, emissora que exibe a série nos EUA. Para os fãs, a tensão dos já clássicos episódios finais de temporada, sempre lotados de ganchos desesperadores na trama, vem acompanhada da incerteza da renovação para mais um ano de socos, disfarces e reviravoltas na vida da agente da CIA Sydney Bristow (Garner), que, nas duas primeiras temporadas, agia como uma agente dupla infiltrada numa organização criminosa, à qual tentava secretamente destruir.

Segundo a ABC, a qualidade da série vem sendo a principal razão por ela ainda estar respirando. Difícil acreditar, principalmente pelo fato de que, durante o terceiro ano, que estréia nesta quarta-feira no Brasil, o alto padrão dos roteiros parece ter sido largado em algum canto escuro e esquecido de vez.


LAÇOS DE FAMÍLIA

Após vir à tona inicialmente como uma piada na mente do criador J.J. Abrams, que pôs-se a imaginar como seria se a protagonista de sua outra cria, Felicity, fosse uma agente secreta escondendo inúmeros segredos de seus amigos e pretendentes, Alias foi concebida como um híbrido da própria Felicity com o estilo quadrinesco e exagerado das histórias de espionagem à la 007, mas sem deixar de lado a inteligência.

Apimentada com finais abertos e revelações explosivas a cada episódio - além das perucas de 20 mil dólares para os disfarces de Garner e das aparições históricas de Quentin Tarantino e Roger Moore -, a primeira temporada foi um marco no quesito "diversão com algo a mais", e seu recente lançamento em DVD no Brasil é a oportunidade perfeita para vê-la ou revê-la com a atenção merecida. (Não continue a ler este artigo se você ainda não o fez. Quem avisa amigo é).

O segundo ano começou com a chegada da bergmaniana Lena Olin ao elenco, roubando a cena no papel de Irina Derevko, a mãe desaparecida de Sydney. Ao mesmo tempo, porém, a fórmula da agente dupla lutando contra os vilões enquanto trabalha para eles foi dando sinais de cansaço, o que resultou na literal implosão da trama que se construíra até ali, no episódio Phase One, exibido nos EUA logo após a final do campeonato de futebol americano de 2003. Jogada de marketing ou não, a estratégia transformou Sydney numa "simples" agente a serviço do governo, e a série, portanto, em algo um pouco menos atraente. Os conflitos familiares resultantes da união de pai (Victor Garber, 3 vezes indicado ao prêmio Emmy pelo papel de Jack Bristow), mãe e filha espiões não foram suficientes para manter o equilíbrio, e maluquices como clones e corações mecânicos do século XV pioraram ainda mais a situação. Isso até o capítulo de fechamento, intitulado "The Telling", que, verdade seja dita, praticamente compensou a pequena lambança que foi o segundo ano.

Chegamos, enfim, ao que interessa.


ALMOST 2 YEARS

Na transição da segunda para a terceira temporada, Alias viu seu novo principal atrativo, Lena Olin, se afastar de seu papel por razões até agora um tanto quanto obscuras. Além da perda inestimável, J.J. Abrams atirou outra vez sua criação no ventilador, terminando o ano 2 com uma desorientada Sydney acordando em Taipei sem saber porque, e ainda descobrindo que perdeu dois anos de sua vida num estalar de dedos.

"The Two", o primeiro dos 22 novos episódios que estréiam dia 3, às 20h, no Canal Sony (com um atraso pornográfico, diga-se de passagem, uma vez que a mesma temporada já terminou há quase oito meses em território ianque), começa imediatamente após o fim de "The Telling", e mostra a desconfiança de Sydney perante seu lapso de memória. Mas, para azar dela, não se trata de uma armadilha ou de alucinação, e é bom se preparar para uma dezena de episódios mornos e vagarosos até que toda a verdade seja revelada. Enquanto isso, descobrimos que Jack Bristow aparentemente passou os últimos 6 meses na prisão, conhecemos o novo Arvin Sloane (Ron Rifkin), pretensamente regenerado e agora homem de confiança da CIA (!), além, é claro, da esposa de Michael Vaughn (Michael Vartan), Lauren (Melissa George), funcionária da Agência Nacional de Segurança trabalhando ao lado do marido por uns tempos. Para tristeza dos que torcem pelo romance entre o agente Vaughn e Sydney, aquele anel no dedo do rapaz não era só enfeite.

Além de investir no recém-formado triângulo amoroso, os novos capítulos reservam algumas boas surpresas, como a participação do cultuado diretor David Cronemberg, o retorno de Tarantino (ironicamente num dos piores episódios da temporada), o nascimento do filho de um dos personagens e a aparição de Ricky Gervais (The Office), Vivica A. Fox (Kill Bill) e Isabella Rossellini, quase careca, no papel de uma das irmãs de Irina. Mas as ausências de Olin e também de Bradley Cooper (que deu adeus ao papel do jornalista Will Tippin e faz apenas uma participação especial) são gritantes, e, somadas à introdução de elementos capengas de ficção científica e à lentidão com que o mistério dos dois anos perdidos caminha, fazem da nova temporada a mais irregular e prejudicada até agora.

Para completar, os episódios finais merecem um parágrafo à parte. A falta de originalidade e as reviravoltas grotescas que o arco que conclui a temporada reserva aos espectadores brasileiros atingiram níveis escandalosos, provocaram revolta nos fãs e levaram a ABC a adiar o 4º ano para o início de 2005, para que a série fosse "repensada". A renovação, mais uma vez, foi praticamente um milagre para uma rede famosa por dispensar bons programas ao menor sinal de queda de audiência. Claro que o licenciamento de videogames, livros, brinquedos e outros produtos com a marca da série pode ter ajudado de leve – e a tão falada qualidade parece ter deixado de ser a razão mais forte.

No fim das contas, vale a pena torcer para que a história volte aos eixos, e acompanhar a nova safra na Sony, nem que seja para ver como Alias se tornou o melhor exemplo de um ótimo seriado que simplesmente perdeu o charme em meio às curvas da indústria da TV americana. Se não por isso, Jennifer Garner e suas perucas de 20 mil dólares continuam lá.

 

 

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