|
À beira do colapso
José Joffily reinventa
Dois Perdidos Numa Noite Suja,
de Plínio Marcos, num filme tão chocante quanto surpreendente
Por André Sirangelo
Definir
Dois Perdidos Numa Noite Suja como uma nova versão da obra do
dramaturgo Plínio Marcos é precipitado. O filme de José Joffily é, na
verdade, uma releitura da peça homônima de 1966, que se tornou uma das
mais encenadas no país - certamente o mais célebre exemplo do teatro
marginal da década de 60. É sua segunda adaptação para o cinema: a
primeira foi dirigida pelo mineiro Braz Chediak em 1971.
O
novo roteiro, escrito por Paulo Halm (também autor de Amores
Possíveis, e co-autor de Guerra de Canudos), utiliza muitos
dos diálogos do texto original, mas promove mudanças que, se não alteram
o tema central da obra, possibilitam novos olhares sobre a trajetória
dos dois personagens centrais. Sai o famigerado par de sapatos, objeto
de disputa entre eles, e entra um glamouroso par de botas
femininas made in USA: o personagem Paco agora é uma mulher, e a
São Paulo dos anos de chumbo foi substituída pela Nova Iorque do século
XXI. No recorte do diretor, a discussão sobre a marginalidade ganha
força na questão das falsas esperanças da imigração para os Estados
Unidos em busca de melhores oportunidades.
Uma
realidade que atinge em cheio o mineiro Tonho (Roberto Bomtempo), que,
em cinco anos na cidade, não conseguiu emprego melhor que o de limpador
de banheiros públicos, não fala inglês direito e mora no telhado de um
prédio barra-pesada. É durante o expediente que ele conhece Paco (Débora
Falabella), uma garota que trocou o Brasil pelo submundo nova-iorquino
das drogas e prostituição, e se passa por rapaz para fisgar clientes
homossexuais. Enquanto tenta levantar dinheiro para voltar ao Brasil,
Tonho vê sua recém-iniciada amizade com Paco evoluir para uma violenta
relação de amor e ódio.
O atrito entre os protagonistas é narrado em fragmentos, o que contribui
para o tom realista e moderno da nova roupagem da história, mas pode
confundir o espectador ao misturar presente e passado sem aviso prévio.
A ferocidade do roteiro ganha força com a boa atuação da dupla de
protagonistas e com a competente trilha sonora de David Tygel, premiada
em Gramado. Se há algo que não agrada no longa, não se trata de um
aspecto técnico: a densidade do texto torna Dois Perdidos um
filme igualmente incômodo, em diversos momentos chocante. É, no entanto,
bem-sucedido ao atualizar um marco da dramaturgia brasileira, tornando
ainda mais relevante a denúncia acerca daqueles que travam a luta pela
sobrevivência à margem de qualquer rascunho de uma vida digna. Seja no
Brasil da Ditadura Militar, seja na Nova Iorque da década de 2000.
Dois Perdidos Numa Noite Suja
(Idem – Brasil, 2002)
Direção:
José Joffily
Elenco:
Roberto Bomtempo, Débora Falabella |

CURB YOUR ENTHUSIASM
A HBO Brasil estréia a comédia vencedora do Globo
de Ouro
SOLARIS
Soderbergh. Clooney. Tédio.
BOSTON PUBLIC
A estréia da terceira temporada na Fox
AS IF
Tudo sobre a série que mudou o conceito de seriado
adolescente
JOHN DOE
Estréia na FOX o cult sobre o
homem sem memória
THE SHIELD
Saiba o que acontece na
segunda temporada
|