Plano Geral // As Horas

Todo esse jazz
O musical Chicago estréia com recorde de indicações ao Oscar, e muito barulho para pouco filme

Por André Sirangelo

O falatório está levando o público aos cinemas para ver um filme que Chicago não é. Todo esse jazz armado pela imprensa e, principalmente, pelas premiações, como o Globo de Ouro e o Oscar, criaram uma expectativa dificilmente superada pelo musical de Rob Marshall, que concorre a nada menos que 13 categorias no prêmio da Academia deste ano. Está longe de ser um engodo, sem dúvida, mas igualmente longe de ser mais do que um simples divertimento.

Divertimento, aliás, é o que não falta. O elenco se deleitou durante as filmagens desta adaptação do musical homônimo da Broadway, apesar das elaboradas e exigentes coreografias encenadas. Perfeitamente adaptados a seus papéis, com destaque para a dupla de coadjuvantes Queen Latifah e John C. Reilly e para a aparição relâmpago de Lucy Liu, os atores são um dos trunfos da produção. No entanto, não é possível dizer o mesmo da trama.

Na Chicago dos anos 20, Renée Zellweger interpreta Roxie Hart, uma garota cujo maior sonho é se tornar cantora de cabaré, algo que a bela Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones) havia atingido, e com louvor, mas perdera após assassinar a irmã e o marido e ser levada para a prisão. Quando Roxie também se envolve num crime passional, ao disparar dois tiros contra o amante mau-caráter, ela se junta à Velma no presídio feminino, e cai nas garras do advogado mercenário Billy Flynn (Richard Gere). Flynn arma um verdadeiro circo em torno do julgamento de Roxie, mobilizando a imprensa e a população da cidade para que a comoção geral ajude-o a ganhar o caso.

Na vida real, o barulho organizado pelo personagem de Gere se compara ao bafafá que a Miramax fez crescer em torno do filme, que traçou uma carreira meteórica nas bilheterias dos EUA, começando por baixo e ganhando cada vez mais projeção até atingir o topo, após vencer o Globo de Ouro de melhor filme na categoria musical ou comédia. A diferença é que o advogado tenta vender uma mentira - a de que Roxie matou o amante em legítima defesa. Em contrapartida, Chicago nunca deixa de ser um filme honesto, embora  funcione muito melhor como musical da Broadway, uma vez que nos palcos a preocupação com uma trama atraente é mínima frente aos deliciosos números musicais e às canções irresistíveis. No cinema, apesar de vivermos o apogeu do cinema-espetáculo, o espectador mais exigente vai se decepcionar ao ver que Chicago se apóia demais nas coreografias, narrando uma história capenga e com um final irritantemente previsível.

Algo que, no entanto, não ofusca o brilho da seqüência inicial, uma pérola de direção e montagem ao som de "All That Jazz", na (bela) voz de Zeta-Jones; e das cenas em que os números musicais interagem com a narrativa - com a diferença de que, ao contrário de centenas de outros musicais de Hollywood, as canções transcorrem como variações dos eventos narrados, muitas vezes na imaginação da própria Roxie, e os atores não começam simplesmente a cantar e dançar sem maiores explicações.

É prudente ir assistir ao filme conformado com o fato de que, apesar do que dizem por aí, Chicago pode não mudar nada em sua vida. Não traz o mesmo impacto e originalidade de Moulin Rouge, nem sequer aprofunda os temas que apresenta, como a influência manipulatória da imprensa e a exploração de crimes como atrações de circo. O negócio aqui é a interação entre música e narrativa, o elenco afiado e a sensação de estar sentado num dos teatros da Broadway. Pena que o cinema pode ser muito mais do que isso.

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