Plano Geral

Arsenal #01 - 18/04/03
O porta-voz

Por Samuel

A esbelta agente especial entra na sala de interrogatório com um envelope lacrado. Na mesa ao centro da sala, um criminoso aguarda pacientemente, sem saber exatamente o quê. Outra agente entra na sala, enquanto a primeira conversa friamente com o criminoso. Ela lê o conteúdo do envelope e anuncia com indisfarçável prazer que o homem tem AIDS. Contaminado pelo sangue de sua vítima. Como se ele fosse um animal pronto para ser sacrificado, as duas se satisfazem ao frisar que o criminoso está morrendo. Ao homem sentado ao centro da sala, só resta chorar.

Você deve conhecer as duas. Catherine Willows e Sara Sidle, duas das detetives de C.S.I., a série número 1 dos EUA. Milhões de americanos sintonizam toda quinta-feira na CBS o seriado mais fascista, mais desprovido de sentido ou substância e com o pior elenco da TV (honrosa exceção feita ao talentoso Gary Dourdan, intérprete do agente Warrick Brown), e a aprovação é tanta que já financiou até um spin-off.

Não é a toa que mais de dois terços da população americana apoiou a ofensiva militar contra o Iraque. Os mesmos dois terços que reelegerão o insano ser (humano?) que a maior fraude eleitoral da história colocou na Casa Branca. A TV da Era Bush ganha com C.S.I. seu maior expoente.

É curioso como todo produto cultural que tem o dedo de Jerry Bruckheimer (caso de C.S.I.) deixa uma impressão estranha, uma sensação de que existe ali algo mais que puro entretenimento - e no mal sentido. Um toque de lavagem cerebral. Filmes como Top Gun, Armageddon, 60 Segundos e Pearl Harbor, entre muitos outros, tem essa característica em comum, além do fato de serem ruins, muito ruins. Sem falar na dose intragável de patriotismo.

Vale lembrar que Bruckheimer produziu recentemente para a ABC a série de documentários Profiles from the Front Line, sobre as forças armadas americanas, exibido antes do conflito no Iraque e definido pelo implacável jornal underground The Village Voice, de Nova York, como o aperitivo ideal para a guerra, e um retrato "perfeito" da mesma: eficiente, nobre e livre de despesas e derramamento de sangue.

O pentágono tem um porta-voz infiltrado em Hollywood.

"Bruck" estará de volta às telas em breve, com Piratas do Caribe: A Maldição da Pérola Negra.

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